Desde os 16 anos, eu já praticava o autocuidado [palpação das mamas] e já sabia perfeitamente como eram as minhas mamas. Comecei a fazer isso após ser impactada por uma campanha na televisão onde a atriz Cássia Kiss alertava enfaticamente sobre a importância de apalpar a mama atrás de alterações. Lembro-me da polêmica que isso gerou na época, pois ela estava sem sutiã e mostrando os seios em rede nacional para alertar dos riscos do câncer de mama.

Como eu já me conhecia muito bem, com 35 anos, foi necessário apenas encostar meu braço na mama para notar uma leve alteração, que havia algo de errado onde não devia haver. Eu estava viajando e imediatamente liguei para o meu marido pedindo para adiantar a minha passagem de volta e marcar uma consulta com a ginecologista. Teoricamente, ainda faltavam cinco anos para começar a me preocupar em realizar mamografia e esses exames de praxe.

Na consulta, minha médica achou que fosse uma íngua e que tivesse alguma relação com a garganta, que estava sempre inflamada. Mas, mesmo assim, ela pediu uma ecografia para tirar dúvidas. Isso foi fundamental. Eu tinha outra viagem marcada logo em seguida, mas fiz os exames. Pensei que, se tivesse algo de errado e eu fosse morrer, eu teria pelo menos aproveitado meus últimos dias viajando e me divertindo.

Quando retornei, recebi o temido diagnóstico de câncer de mama. Eu não estava esperando e eu não tinha nenhum motivo para esperar por isso. Tem gente que tem casos na família, mas eu não tinha. Tem gente que conhece alguém que teve câncer, mas eu não conhecia. Os casos de câncer mais próximos a mim eram os das celebridades nas manchetes dos jornais.

Para mim, o câncer estava apenas no imaginário, era algo distante. Eu não sabia que podia acometer qualquer mulher a qualquer momento, muito menos a mim. Naquele momento, achei que eu tivesse recebido minha sentença de morte. Apenas quando ela disse que precisaria fazer a cirurgia para retirar ¼ da mama foi que me dei conta da gravidade da situação.

O diagnóstico me causou certa revolta: eu “não tinha idade” para ter câncer de mama, não tinha casos na família, sempre tive hábitos saudáveis e me cuidava. Para mim, só quem tinha câncer de mama e precisava fazer cirurgia era quem não realizava o autocuidado.

Eu me perguntava o tempo todo “Por que isso agora?”. Afinal, eu me cuidava, fazia tudo certinho e todas as propagandas falavam em “prevenção do câncer de mama”. Oras, se eu me preveni, por que então tive câncer de mama? Se me preveni, por que então terei que passar por tudo isso?

Foi aí que descobri que não existe isso de prevenção de câncer de mama, é aleatório: basta estar viva. Não é possível prevenir. Senti-me lesada, pois a prevenção do câncer de mama é uma propaganda enganosa. Mas, é possível diminuir os riscos de ter a doença e curar-se ao detectar o câncer precocemente.

Fui então à procura de uma segunda opinião médica e optei por seguir essa nova estratégia proposta pela mastologista. Iniciei então o tratamento neoadjuvante, quando a quimioterapia vem antes da cirurgia. Isso fez toda a diferença, pois o câncer desapareceu somente com a quimioterapia. Após a quimioterapia, passei ainda pela setorectomia [retirada de um pequeno pedaço da mama, menor que um quarto] e pela radioterapia. Muito tempo depois, descobri que todos os meus hábitos, todo o meu autocuidado, foram extremamente úteis e valeram a pena: eu me recuperava antes do tempo médio esperado e podia adiantar com as quimioterapias.

Desde o primeiro momento, fui atrás de informação sobre a doença e o tratamento, li conteúdos na internet de fontes seguras e tirei minhas dúvidas com os médicos. Foi assim que descobri que eu estava me curando de um subtipo de câncer muito agressivo, o triplo negativo, que se desenvolve mais rapidamente e que havia poucas informações a respeito em português, por ser mais raro.

A mensagem que deixo é: não aceite informação pela metade, é preciso buscar e entender melhor o que está se passando. Quanto mais informação eu tinha, mais empoderada e segura eu ficava. Você é responsável por mudar a sua vida. Sentir medo é inevitável, mas não se pode deixar ele limitar você, impedir você de fazer o que for preciso.

Com a minha jornada contra o câncer, eu aprendi a nunca mais desistir e a agradecer sempre. Antes, eu desistia de tudo muito facilmente ao me deparar com um obstáculo. O que me salvou, no final das contas, foi o autoconhecimento e a informação. Olhando para trás, o câncer de mama não foi uma sentença de morte, mas sim uma sentença de vida: hoje sou mais e melhor que antes.



Atitude exige coragem #PACIENTESNOCONTROLE
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A Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama trabalha para reduzir os índices de mortalidade por câncer de mama em todo o Brasil, influenciando políticas públicas para defender direitos de pacientes, ao lado de cerca de 70 ONGs associadas em todo o país.

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