Minha mãe teve câncer de mama com 53 anos. Quando ela fez a mastectomia e a reconstrução mamária, o cirurgião plástico falou para mim e para a minha irmã: “vocês precisam se cuidar”. Eu, na época com 39 anos, fiquei com uma pulga atrás da orelha e resolvi por conta própria fazer uma mamografia. Meu médico disse que não precisava, que era melhor esperar os 40 anos. Mas eu insisti. Fui num outro médico, que me disse a mesma coisa.

Pedi então que uma colega minha de trabalho, mais velha que eu, que iria ao ginecologista, pedisse uma requisição de mamografia em meu nome. A médica dela receitou sem nem me conhecer.

Feita a mamografia, descobri que nas minhas mamas haviam microcalcificações agrupadas, que mereciam maiores investigações. Corri e mostrei o exame ao meu médico, que disse que em seis meses era para repetir o exame para ver como as microcalcificações iam se comportar. Eu saí de lá mais indignada do que entrei: eu tinha histórico familiar e ele não estava me levando a sério.

Lembrei-me imediatamente do caso da minha mãe, que não precisaria passar por muita coisa que passou se não fossem sucessivos erros médicos que aconteceram durante a fase de diagnóstico. Lembrei-me também do meu pai, que fez uma cirurgia para retirar uma íngua debaixo do braço e, logo depois, ele teve um câncer no pulmão. Não há confirmação, mas acreditamos que tenha sido um câncer de mama que sofreu metástase no pulmão. A morte deles foi uma época bem difícil da minha vida.

Troquei de médico imediatamente. Consultei outro que falou rudemente que não sabia o que era aquilo, mas poderia fazer cirurgia e retirar as microcalcificações se eu quisesse. Saí de lá chorando. Foi quando descobri a minha médica querida, através da indicação de uma colega do meu marido.

Como eu tinha convênio médico, consegui rapidamente uma consulta com a nova médica, que fez tudo o que precisava ser feito e marcou a cirurgia para o dia seguinte. Havia 90% de chances de ser uma lesão proliferativa com atipia, mas que seria mais interessante retirar, pois as células poderiam caminhar para um câncer.

Sete dias depois da cirurgia, fui retirar os pontos e a doutora me disse: as células estavam realmente caminhando para um câncer e que teria que passar por uma nova cirurgia, mas que eu não perderia a mama, pois estava num estágio muito inicial de câncer. No mês seguinte, iniciei a radioterapia, fazendo 20 sessões. Tive muita sorte, pois nunca tive nenhum efeito colateral. Não foi necessário fazer quimioterapia e, no que terminei as sessões, apenas fiz medicação de acompanhamento e consultas de revisão.

Fiquei quatro meses afastada do trabalho e, quando fui fazer a perícia para voltar a trabalhar, o perito disse que me daria atestado por mais seis meses e depois eu me aposentaria por invalidez. E, por incrível que pareça, eu ganharia mais sem precisar trabalhar. Neguei na mesma hora: falei a ele que queria minha vida de volta como ela era, pois não havia mais nenhum tratamento a fazer. Voltei ao trabalho e só aposentei anos depois, mas por tempo de serviço.

Prometi à minha médica que seria voluntária na ONG que atendia pacientes com câncer de mama quando me aposentasse. Desde 2010, sou voluntária no Instituto da Mama do Rio Grande do Sul (IMAMA). Ajudo com as palestras, projetos, com a capacitação de novas voluntárias e tudo mais que seja necessário. Sou realizada.

Durante toda a minha jornada com o câncer, nunca desisti, sempre fui atrás. Tive ao meu lado o meu marido Marcos, um companheiro em tempo integral, que me deu suporte e apoio em todos os sentidos. Tive também o restante da minha família e meus amigos. Apoio e suporte deles fez toda a diferença.

Gosto de contar minha história, pois luto até hoje a favor do acesso ao diagnóstico precoce: imagine se todas as mulheres do Brasil descobrissem o câncer de mama no estágio em que eu descobri? É preciso lutar. Se a mulher estiver sentindo alguma coisa ainda mais com histórico familiar, por que negar uma mamografia a uma mulher de 39 anos ou menos? É seu direito realizar o exame. É necessário correr atrás, não aceitar tudo o que dizem de primeira, conhecer seus direitos e não aceitar tê-los negados.



Atitude exige coragem #PACIENTESNOCONTROLE
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A Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama trabalha para reduzir os índices de mortalidade por câncer de mama em todo o Brasil, influenciando políticas públicas para defender direitos de pacientes, ao lado de cerca de 70 ONGs associadas em todo o país.

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